quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Escavações do Sítio Tucum, Comunidade Quilombola de Tucum (Tanhaçu-Ba)

Após uma semana de muito trabalho, cá estou para assumir meu posto. De volta a cidade, estamos todos enclausurados em nossas casas por causa da Greve dos Policiais Militares da Bahia que há uma semana deixa a cidade de Salvador e demais municípios baianos em pânico.
Falemos um pouco sobre os trabalhos na Chapada Diamantina. Na Comunidade Quilombola de Tucum, cidade de Tanhaçu-Ba, localizada ao Sul da Chapada Diamantina, durante a construção de uma quadra esportiva no ano de 2011, foram encontrados uma Urna funerária e um assador inteiro, além de outros fragmentos cerâmicos pelos moradores locais.
Durante uma semana (de 01 a 06 de fevereiro de 2012) a Comunidade Quilombola do Tucum, recebeu a equipe de arqueologia da Universidade Federal da Bahia (Grupo de Pesquisa Bahia Arqueológica e demais estudantes) para a retirada do material e início das escavações. A equipe multidisciplinar era composta pelo Arqueólogo e Profº da UFBA Carlos Etchevarne (Coordenador Geral); o Arqueólogo assistente Alvandyr Bezerra (coordenador de campo); A Administradora e pesquisadora Marcia Labanca; A Antropóloga Greciane Neres; O doutorando em Arqueologia pela UFPE Grégoire Van Havre; O profº de Educação Física Ney; E os graduandos da UFBA, Taise Ane (Licenciatura em Pedagogia), Iracema Fontes (Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades), Gerson Garibalde (Bacharelado Interdisciplinar em Cinema), Luis Gustavo Carvalho (Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia), Jade Nolasco (Licenciatura em Ciências Sociais), Renata Cardoso (Bacharelado em Museologia) e Mirela Borba (Licenciatura em Ciências Sociais).
O Sítio Tucum, como assim foi nomeado, é um grande sítio arqueológico relacionado a um grupo indígena pré-colonial, vínculado convencionalmente a uma macro-unidade cultural, denominada Tradição Tupi. Os recipientes encontrados no local possuem características deste grupo. O “pote” como ficou conhecido em toda a região de Tanhaçu é um recipiente cerâmico, uma Urna Funerária, com paredes e bordas grossas, parte externa muito decorada, com desenhos cheios de detalhes, linhas bem finas pretas, que se destacam no fundo branco e duas linhas grossas vermelhas. Dentro da Urna Funerária, havia um recipiente cerâmico quase inteiro - um assador, com decoração de fundo branco, linhas geométricas em preto e uma linha vermelha bem grossa próxima a borda. Além destes, foram encontrados outros fragmentos de matérias cerâmicos com as mesmas características e também com decoração plástica.
Durante as prospecções foram encontrados no entorno da área muitos fragmentos de material cerâmico. Foram feitas mais de vinte sondagens, mas nenhuma outra urna foi localizada.
Além das escavações, foram feitas pela equipe entrevistas com moradores, lideranças locais e demais informantes que pudessem fornecer informações sobre a história local, saberes tradicionais, possíveis materiais e locais de cunho arqueológico; Alguns locais foram visitados e foram encontrados mais material cerâmico, materiais líticos lascados e polidos e um sítio de arte rupestre.
Em breve postarei um texto mais completo sobre o contexto do local, a metodologia adotada, as impressões e possibilidades futuras de escavações na área.
Deixo registrado, que foi uma valiosa experiência e mais ainda por ter conhecido um povo tão generoso, simpático e que nos receberam de braços abertos.Esta postagem é dedicada ao Povo de Tucum: Dona Sônia e Seu Pedro, Dona Neura e suas filhas e netas (especialmente Naiara), Dona Vivi, Dona Mariazinha, Dona Carminha e sua filha Rita, Dona Maria e Seu Messias (até hoje estou chorando...), aos colaboradores fieis da escavação – Sergio, Marta, Coca, Seu Sebastião, Pedro Henrique, Mailson, Naiara (de novo), Iago, Giovane e os demais que me fugiram o nome, mas que guardo com carinho em meu coração.


Vista à partir da Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba. Foto: Greciane Neres.

Urna Funerária Tupi, assador e fragmentos cerâmicos. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.
Foto: Taise Ane Santana.   
Urna Funerária Tupi, assador e fragmentos cerâmicos. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.
Foto: Taise Ane Santana. 

Detalhe da decaração da Urna Funerária Tupi. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.
Foto: Taise Ane Santana. 
Detalhe da borda de um dos recipientes cerâmicos. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.
Foto: Taise Ane Santana. 
Detalhe da decoração pintada da Urna funerária de Tradição Tupi e um fragmento cerâmico. Foto: Greciane Neres.

Detalhe do material cerâmico coletado. Foto: Taise Ane Santana.
Detalhe da decoração pintada do fragmento da Urna Funerária Tupi.  Foto: Taise Ane Santana.

Fragmento cerâmico de Tradição Tupi  encontrado em uma das sondagens. Foto: Marcia Labanca.
Equipe de Arqueologia e comunidade trabalhando na escavação. Foto: Marcia Labanca.

Retirada dos sedimentos da sondagem. Foto: Marcia Labanca.

Equipe de Arqueologia e Comunidade em campo. Foto: Marcia Labanca.

Sondagem 16 finalizada. Foto: Marcia Labanca.

Artefatos Líticos Lascados encontrados na região, próximo ao Sítio Tucum.  Foto:  Gerson Garibalde.

Equipe de Arqueologia carregando o carro com os materiais coletados  para serem levados à Salvador-Ba.
Foto: Greciane Neres.

Casario da Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba. Foto: Greciane Neres.
Casa de propriedade de Dona Maria e Seu Messias, datada do período colonial. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.
Foto: Greciane Neres.
Igreja na Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba. Foto: Greciane Neres.
Visita à casa da ceramista Dona Lindaura. Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba. Foto: Greciane Neres.

Palesta com o Profº Carlos Etchevarne na Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba. Foto: Marcia Labanca. 
Palesta com o Arqueólogo assistente Alvandyr Bezerra na sede do município de Tanhaçu-Ba.
Foto: Greciane Neres. 
Equipe de arqueologia, comunidade e autoridades políticas, após a Palesta com o Profº Carlos Etchevarne na Comunidade de Tucum, Tanhaçu-Ba.

Você também poderá gostar da postagem anterior Cerâmica da Tradição Tupi. 

15 comentários:

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    1. Oi Grég,

      Obrigado pelo visita. Sim, é fantástico!
      Volte sempre.

      Greciane

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  2. Respostas
    1. Oi Alaila,

      Foi um trabalho maravilhoso, já estou com saudades.
      Obrigado pela visita.

      Greciane

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  3. Cara pesquisadora,
    Me responde:Se é uma urna funeraria cadê os restos mortais?e geralmente num sitio onde encontram-se urnas funerarias geralmente é um cemiterio.Foram encontradas outras urnas,e se sim tinham R.Mortais?Tens certeza que é uma U.funeraria?Grosso modo fico a pensar que é no minimo intrigante uma U.F. sem R.M.

    Curiosos Abrços,
    CURIOSO

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    1. Caro Curioso,


      É bastante interessante a sua pergunta. Já havíamos discutido isso no sítio. A questão é: não sabemos em que condições esses materiais estavam quando foram encontrados, os recipientes cerâmicos (urna, assador e demais fragmentos) foram retirados e depois depositados novamente no mesmo local, assim o contexto primário foi perturbado, se havia algum vestígio de matéria orgânica, não conseguimos encontrar na retirada da urna. Sobre a outra questão de que geralmente num sítio onde se encontram urnas funerárias é cemitério, respondo que não necessariamente, os grupos Tupi, até onde sei, não seguiam um padrão de ocupação e enterramento, assim poderiam concentrar seus enterramentos num mesmo local ou dispersa-los.
      Chamamos de Urna Funerária pelo contexto que observamos, além de outras questões, e também em pesquisas anteriores encontramos materiais semelhantes a este encontrado em Tucum com as mesmas características (na Chapada Diamantina também). Saliento que nas escavações em Tanhaçu, não encontramos novas urnas, somente encontramos fragmentos cerâmicos possivelmente mais rasos.
      Não sei se consegui responder, até porque não fomos ainda para o laboratório para analisá-las, mas creio que em breve posso compartilhar contigo os resultados do trabalho realizado na Comunidade.

      Na parte de textos e livros (aqui no blog) você poderá encontrar textos sobre os grupos tupi.

      Agradeço pela visita e volte sempre,

      Abraços

      Greciane

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  4. Eu estive ae quando, assim que essa urna foi descoberta. Estava trabalhando na Ferrovia. E o prefeito de Tanhaçu nos chamou. Fomos lá e vimos essa urna, como nao era a nossa jurisdiçao naquela area, nós orientamos os moradores de Tucum e o prefeito e sua esposa. Simplesmente perfeita essa urna. Lembro que quando chegamos pra ver a urna e ela estava quase toda quebrada, deu um aperto no coraçao kkkkkkkkk. Bom o trabalho de voces!!!!!!!

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    1. Caro Rodrigo,

      Fomos informados da presença de vocês, que estavam trabalhando no trecho da Ferrovia e que visitaram o sítio. Acontece que do momento em que ela foi encontrada, até a nossa chegada, algumas coisas foram modificadas. Para você ter uma ideia, até briga de cachorros "rolou" dentro da urna.
      Sobre o seu comentário, não entendi o trecho em que diz: "Lembro que quando chegamos pra ver a urna e ela estava quase toda quebrada, deu um aperto no coraçao kkkkkkkkk". Mais precisamente o "KKKKKKK". Espero que tenha sido apenas o erro de digitação.
      Encaro tudo com muita seriedade, transparência e honestidade jamais faríamos alguma coisa para destruir as peças encontradas, pois são pertencentes ao patrimônio arqueológico da Bahia.

      Obrigado pela visita e volte sempre.

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  5. É pq quando chegamos lá a Urna ja estava quebrada. Pq ate entao quando ela foi descoberta, o pessoal tentaram tirar ela e no que tentaram tirar a tampa dela quebrou e assim o mesmo ocorreu com o assador que estava dentro da urna.
    Agora sobre o trecho do meu comentario "Lembro que quando chegamos pra ver a urna e ela estava quase toda quebrada, deu um aperto no coraçao kkkkkkkkk".

    É que na maioria das vezes quando se encontra um urna a nossa esperança é de que ela se encontre inteira (o que nao é fácil também) e nao quebrada. Por isso esse aperto no coraçao. E a risada foi de ironia minha mesmo!!!!
    Como disse gostei do trabalho de voces e só agora que estou sabendo do resultado dessa urna,pq eu perguntava para um monte de gente sobre o que foi feito da urna e nunca obtive respostas. Mas fico feliz que tenham a resgatado e resgatado tambem um pouco da historia do pessoal de TUCUM!!!!
    Abraços e mais uma vez parabens pelo trabalho!!

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    1. É lamentável saber que o material estava inteiro (ou quase) e depois nos depararmos com o mesmo em pedaços. Esse tipo de artefato gera muita curiosidade das comunidades e lá não poderia ser diferente. Acredito que iremos em breve teremos novidades para contar sobre o material coletado (fotos de laboratório, restauração, etc).
      Que bom que gostou do trabalho e sobre o pessoal de Tucum, me fizeram chorar (eu e toda a equipe) no dia em que fomos embora.

      Seja seguidor do blog, se desejar, assim trocaremos mais figurinha.

      Um forte abraço,

      Cordialmente

      Greciane Neres

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    2. Querida Greciane;
      Boa noite!!
      Parabéns a equipe de Arqueologia da UFBA, (Grupo de Pesquisa Bahia Arqueológica), pelo brilhante trabalho de campo, no Sítio de Tucum,(Tanhaçú-Ba, pode-se perceber nas fotos a retirada minuciosa do material e o início das escavações.
      O desenvolvimento da Arqueologia ultrapassou nossas expectativas, e nos sentimos felizes ao pensar que a equipe continua fortemente com a pesquisa dos artefatos encontrados e coletados.
      Desde já eu quero agradecer a você e o Fernando pelo o dia de hoje,pela atenção e disponibilidade do tempo de vocês, em que permaneci no laboratório.

      Obrigado!!!

      ATENCIOSAMENTE;
      Adroaldo Cruz;

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    3. Caro Adroaldo,

      Agradeço em nome do grupo pelo elogio e destaco que sempre fazemos os trabalhos com muita responsabilidade e seriedade. Trabalhar com o que se gosta é um privilégio de poucos. A viagem foi uma delicia e o campo foi muito bom.
      Desejo mais uma vez boas vindas.

      Obrigado pela visita e volte sempre

      Cordialmente

      Greciane Neres

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  6. Greciane moro em são paulo,mas sou da comumidade de cachoeirinha na chapada diamantina; seu trabalho e muito bom e de grande valia para o patrimonio historico da Bahia.sou estudante de filosofia e sei como e dificil o trabalho de pesquisa no brasil,rever meu povoado nas suas fotos me encheu de alegria e saudades.
    parabéns.
    Lauro B.Silva

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    1. Olá Lauro,

      Fico feliz em saber que gostou do meu trabalho, acho que a proposta é essa mesmo, divulgar, divulgar e divulgar. Falastes que é de Cachoeirinha, de Wagner? Se é o povoado de Cachoeirinha em Wagner, já estive lá e conversei com duas figuras fantásticas (o pai de Carminha e o amigo dele, que me fugiu os nomes agora). Em Janeiro fiz uma postagem sobre Wagner, dá uma olhada nos arquivos do Blog.
      Visite o blog mais vezes e deixe seus comentários, críticas e sugestões, serão sempre bem vindos.
      Entra na página no facebook, lá tem novidades também.

      Cordialmente

      Greciane Neres

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  7. Os grupos indígenas da região não foram os do grupo linguistico Jê? Pelo menos é o que diz a historiografia local.
    Existem trbalhos genéticos da população local?

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